sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Porvir

A morte não nos deixa saudosos do que tivemos em vida. Morrer é ter saudades do nosso porvir. É Lamentar o que nunca se fez. É balbuciar, no último suspiro, as palavras entaladas que, agora, só saem como um sopro triste e desgarrado do seu lar silencioso. É chorar não pela perda das imagens já vistas, mas pelos olhos, que agora só abrigam reflexos vazios. Não pelas músicas que já cantaram na alma, mas pelos ouvidos, que não sabem mais o que lhes chega. Não pelo apetite perdido, mas pela língua, sem doce, sem amargo, sem verbo. Pelas mãos gélidas, que moldariam o destino e mudariam o mundo, sem mais calores, sem mais poderes. As palavras arrancadas, as músicas acabadas, a escultura moldada, a semente plantada, não dói ao espírito que se esvai, pois onde o espírito tocou, jaz eterna memória. O que dói é aquilo que não foi feito. E o que dói mais ainda, é aquilo que nem sequer foi pensado. Junto ao sucumbir da carne, se desfazem sonhos, ainda não sonhados.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Retratos escritos

"Quem sabe que o tempo está fugindo,
descobre subitamente a beleza única do momento que nunca mais será."

Ninguém se parece mais contigo
Que o teu retrato
Nele, não há a máscara
Que floreia o ato

Não há nada mais belo
Que o teu retrato
Pois nele, não és passível
Nele não és passável

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O retrato, guardador de instantes
Cristalizador dos detalhes
Guardou o tempo para mim
Nele mora, viva e eterna
A hora que não retorna
A hora que não se apaga.

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Ao olhar o retrato
Vi além da minúscula imagem
Que atravessou meus olhos

Vi o segundo que havia acabado de romper
Vi o instante frágil que precedia
O segundo seguinte
A imagem estática revelou-me então
O inconstante e móvel

A figura mostrava-me o movimento exato do vento
Embalando a dança das folhas
Uma folha estava caindo
Mas ainda não havia alcançado o chão
Minha memória sabia somente da folha já caída

Lembro-me que era noite enluarada
Mas só o retrato fiel
Mostrou-me o reflexo da lua
Tremendo na água

Olhar um retrato
é ver sem os nossos olhos
É ver além do retrato
Ver além do campo de visão

Meu olhar lento
Minha mãos pequenas
Não viam, não tocavam
A imensidão daquele instante

Mas a lente sim
Fez do momento, permanente
E me trouxe o que já era passado
Ela devolveu-me o tempo perdido

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Sobre o ato de florescer

Eu adoro flores, posso passar horas olhando para uma, que o deslumbre não me deixa. Estava em uma feira de plantas apreciando uma orquídea branca, linda e perfumadíssima. A dona da obra de arte da natureza(apesar de plantas serem filhas da terra, e não posse dos homens) me disse que ela só perfumava à noite. Claro que a minha mente viajante não se conteve, e daí começaram as reflexões. Quando a moça me contou que a orquídea só perfumava à noite, eu perguntei se era porcausa da escuridão ou das alterações do dia, em outros termos, se ela fosse colocada, ao meio-dia em um quarto escuro, passaria a exalar seu cheiro, ou o contrário, se à noite, ao acender a luz, ela perderia o aroma. A moça não soube me responder. Mas eu, pessoalmente, custo a crer que se possa enganar o pressentimento das flores.
Clarificou-se logo para mim o porquê delas serem brancas, ora, se elas perfumavam à noite, então eram flores que atraiam os insetos para fecundação à noite, e se o "flerte" dava-se na escuridão, precisariam mesmo do branco para sobressair. Simples, né? Para nós, humanos, nem tanto, pois em meio a tantos pre(conceitos), tantas fórmulas, e tanta racionalidade... acabamos por perder o encanto da flores. Nossas estações estão fora de ordem, perdemos o dia da primavera, e não florescemos mais. É isso mesmo, o verbo é "florescer", um místico medieval, Angelus Silésius(eu nunca tinha escutado falar, foi-me apresentado pelo Rubem Alves) disse assim: "A rosa não tem 'porquês'. Ela floresce porque floresce.". É isso mesmo, eu fico impressionadíssima com a inteligência da natureza, nunca escutei falar que uma onze horas(aquela flor que só floresce de manhã) tivesse acordado mal humorada e passado o dia fechada, ou que essas flores brancas da noite(são muitas!) esquecessem-se de perfumar. Por isso elas são encantadoras, por deterem a intuição inquebrável da natureza, elas não aprendem as leis, pois são a própria lei do universo em eterna e perfeita execução. O mundo pode ruir, as flores jamais se esquecerão do seu compromisso divino de nos prestar beleza.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A morte de Beatriz

O mais apreciável em uma narração, às vezes mais que a mensagem final, são essas passagens despretensiosas que transmitem sensações cotidianas, e que passam, no mais das vezes, despercebidas e nunca contadas.
Eu li este conto a primeira vez, e só lembrava do belo momento da visão do Aleph; li a segunda, e passei a descobrir as metáforas; li a terceira e atentei para fascinante passagem em que o narrador esquece-se do que lhe parecia mais importante, Beatriz... Li várias vezes, até me deslumbrar com o sentimento desta passagem:
"Na ardente manhã de Fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, notei que os painéis de ferro da Plaza Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros louros; o facto doeu-me"
O conto começa com a morte de Beatriz, no entanto, a dor dele não deu-se neste momento, pois, ignorando a morte, Beatriz ainda o habitava. A dor veio a ele, ao ver a renovação do anúncio de cigarros. Neste momento, ele chorou a partida de sua amada, pois sentiu que o universo refazia-se rápido, incessante e indiferente a ausência dela. Quando ele percebeu o descompasso entre o que havia nele e o universo, chorou enfim, a morte de Beatriz. Para ele, não havia dor maior do que ver uma folha cair de uma árvore à revelia de Beatriz, o mundo deveria ter parado para lamentar sua ida.
A dor da perda não é mero lamento pela ausência, é o espirito indignado com o furor do tempo, que passa, renegando aquela inexistência. É o homem, senhor da razão, estranhando a passagem das horas e a mudança das coisas. É a vaga e doída lembrança de que corremos para acompanhar o tempo, pois ele, não nos pode acompanhar individualmente. Ele nunca corre, e nunca para... ele simplesmente passa. Como diz aquela música, cantada pela Nana: "Ele sabe passar, e eu não sei...".

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Espiritualidade

“Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.”
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho…
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres…
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?”

Espiritualidade, Walt Whitman

sábado, 13 de outubro de 2007

Clarice

"Porque às cinco da madrugada de hoje, 25 de julho, caí em estado de graça.
(...)
O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe e existe o mundo. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia da pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é leve. É uma lucidez de quem não precisa mais adivinhar: sem esforço, sabe. Apenas isto, sabe. Não me pergunte o quê, porque só posso responder do mesmo modo: sabe-se"
(...)
E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero- eis que três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar."

Quando li Clarice me tornei menos solitária. Água viva é diferente de todos os livros que já tive contato, me parece que tem sangue correndo por aquelas letras, tão vivas elas estão. A solidão que a Água Viva nos rouba(ao mesmo passo que nos traz) é aquela mais triste e bonita. A solidão, que todos nós, inevitavelmente temos. Não é solidão por ausências. É a solidão de sermos quem somos(parece redundante? Não é!) desde que nascemos até o nosso último dia, à cada instante, inafastávelmente.
Sabemos que dois corpos não podem estar no mesmo espaço ao mesmo tempo, o que nos conduz a vermos as coisas em dado momento, por um ângulo que só nós podemos ocupar, isso é incompartilhável. Sei que meu olho é meu, e o teu é teu, e por isso nunca veremos nada igual. E que os caminhos que percorremos, não podem ser os mesmos, embora algumas vezes se cruzem. E que a mente é um campo complexo e desconhecido, que todos nós temos, de forma tão individual quanto as linhas dos nossos polegares.
Ah, como eu queria, por um minuto apenas, compartilhar sensações e pensamentos, em toda sua exatidão. Água viva faz esta mágica: devaneios das noites insones, fluxo confuso de idéias, reflexões indizíveis. Sem crivo, sem pausas. Clarice não compartilha pensamentos formados, ela, corajosamente, se abre para sua solidão e a deixa fluir livremente, desmanchando-se em letras. Simplesmente adentra nosso corpo, com sua alma densa, e nos faz sê-la. É como se estivéssemos por uns dias, vendo com seus olhos, ouvindo por seus ouvidos, sentindo com sua alma. Chegamos quase, a pintar suas telas, tamanha a inspiração que sugamos daquelas páginas.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Nalgum lugar

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

E. E. Cummings